O que é liberdade? Escolher sua profissão e religião sem julgamento alheio? Poder transar o quanto quiser ou, quem sabe, usar drogas ilícitas? Para alguns a liberdade é sair da casa dos pais simplesmente pela pressão de te-los em volta, para outros é poder viajar e saltar de alturas mirabolantes em esportes arriscados sem nenhuma alteração de fato em suas vidas além da emoção de sentir a adrenalina correndo pelas veias. Liberdade seria algo palpável em ações, regras e expressões ou um sentimento interno que cabe à ninguém além de si mesmo cultivar e (des)construir? Será que somos realmente livres? Será que temos mesmo tantas amarras quanto pensamos que temos? Quem nos prende na vida e quem nos prende em nós mesmos?
Muitos de nós atribuímos nossa liberdade ao outro. É do outro que vem nossa alegria e tristeza e criamos expectativas diante de como as pessoas deveriam nos compreender e tratar. É talvez a algema mais superficial e que se mostra bastante ilusória quando nos tornamos adultos e donos de nossas vidas mas ainda assim vivemos em prol de regras da sociedade e temos um turbilhão de sentimentos que gritam bem alto dentro da gente.
A abertura dessa algema nos coloca de frente com outra amarra e encaramos a dura realidade de que vivemos dentro de gaiolas sociais, onde então travamos uma guerra interna para conseguirmos ser felizes ali dentro. Achamos que o problema está em nós. Nos camuflamos com diversos tutoriais de maquiagem emocional pelo Youtube como "10 dicas sobre a lei da atração e co-criação" ou "como se conectar com sua essência e ser verdadeiramente feliz". Essa amarra é mais dolorida, pois implica em assumir que nós mesmos nos maltratamos. Assim como nossos pais, professores e a sociedade em geral, nós projetamos ideais para nossas vidas e empurramos nossa mente em formas desconfortáveis e utópicas. Mascaramos sentimentos e fingimos regar uma espiritualidade que na verdade é de plástico...
Quantas vezes você não se percebeu manipulado ou escravizado na busca eterna pela felicidade? Em quantas correntes você se debateu incansavelmente apenas porque almejava muito ser preso em outro dogma, outra filosofia, outro lugar que prometia a tal liberdade? Liberdade é ilusão cantada por passarinhos vizinhos em gaiolas que não podemos ver - e quando paramos de ouvi-los aprendemos a trabalhar com o nosso silêncio, com o que há dentro de nós.
E se a verdadeira liberdade reside onde entendemos nossos limites e nos permitimos assim transitar livremente por todas as gaiolas que nos interessam? Talvez o que desejamos não seja a utopia da iluminação, autonomia e plenitude e sim esse pequeno ponto de equilíbrio onde paramos de tentar organizar a casa e passamos a compreender e utilizar a bagunça e caos ao nosso favor. Sem culpa, sem idealizações, sem projeções. Apenas nós mesmos, nossas asas e nossos corações.
